Categoria: Destaques

  • Guia autônomo ou guia de agência, qual caminho é mais desafiador?

    Guia autônomo ou guia de agência, qual caminho é mais desafiador?

    A profissão de guia de turismo, regulamentada no Brasil desde 1993, reúne hoje quase 38 mil profissionais cadastrados no Cadastur. Ao observar esse universo, percebo que existe uma divisão clara entre dois perfis: os que atuam de forma autônoma e aqueles que estão vinculados a agências. Essa escolha, mais do que uma formalidade, revela muito sobre os desafios e as oportunidades de cada profissional.

    Na minha opinião, o guia autônomo representa o espírito empreendedor do turismo. Ele tem a liberdade de criar roteiros, definir preços e se conectar diretamente com o turista. Porém, essa liberdade vem acompanhada de um pacote de responsabilidades: gerir finanças, lidar com marketing, negociar com parceiros e enfrentar sozinho a sazonalidade do setor. É um caminho que exige coragem e resiliência, mas que, em contrapartida, possibilita imprimir sua identidade no serviço e oferecer experiências únicas.

    O guia vinculado a agências, por sua vez, encontra na estrutura o seu maior aliado. A empresa cuida da divulgação, organiza as reservas e reduz a carga burocrática. O profissional pode se dedicar ao que sabe fazer de melhor: conduzir pessoas e transmitir conhecimento. Contudo, há limitações evidentes. O roteiro é pré-definido, a margem de negociação é estreita e a remuneração costuma seguir padrões fixos. Ainda assim, reconheço que a previsibilidade oferecida por uma agência pode ser fundamental para quem busca segurança e estabilidade.

    Apesar dessas diferenças, há pontos que aproximam os dois modelos. Ambos sofrem com a sazonalidade, com desvalorização da profissão e com a pressão por atualizações tecnológica. Redes sociais, plataformas digitais e marketplaces já não são opcionais: são ferramentas indispensáveis para a sobrevivência no mercado.

    Diante desse cenário, acredito que a escolha entre autonomia e vínculo não precisa ser definitiva. O caminho mais inteligente pode estar no equilíbrio: o guia que cria produtos autorais pode também firmar parcerias com agências em momentos estratégicos, unindo independência e estabilidade.

    Em última análise, defendo que o verdadeiro desafio do guia de turismo não está apenas na forma como ele se insere no mercado, mas em sua capacidade de se reinventar. Seja autônomo ou vinculado, o futuro da profissão depende de valorização contínua, ética no exercício e inovação constante. É isso que vai garantir não apenas a sobrevivência, mas a relevância do guia de turismo na experiência do viajante moderno.

    Ana Macêdo

  • Escala de Motivação Turística: Uma nova perspectiva para entender a escolha de um destino turístico

    Escala de Motivação Turística: Uma nova perspectiva para entender a escolha de um destino turístico

    Viajar é mais do que sair de casa. Para muitos brasileiros, trata-se de um momento para descansar, conhecer novos lugares ou apenas se desconectar do cotidiano. Mas o que define, de fato, a escolha de um destino? O que leva alguém a optar por uma cidade específica entre tantas possibilidades?

    Durante muito tempo, essa resposta se baseou em intuições ou percepções vagas. Profissionais do turismo analisavam o comportamento do público com base em tendências, mas sem apoio metodológico capaz de orientar decisões de forma sistemática e aplicável. Isso começou a mudar com a criação da Escala de Motivação Turística (EMT), proposta pelos pesquisadores Marcelo da Silva Schuster e Valéria da Veiga Dias e publicada na revista Turismo: Visão & Ação.

    Fruto de uma pesquisa com quase mil participantes, a EMT identifica três grandes fatores que impulsionam as viagens no Brasil. O primeiro é o lazer — o desejo de explorar novos ambientes e vivenciar experiências prazerosas. O segundo é a motivação cultural, que inclui o interesse por tradições, história e contato com a identidade local. Por fim, há a fuga da rotina, relacionada à busca por tranquilidade, descanso e alívio do estresse.

    Essas três dimensões permitem uma leitura mais precisa do perfil do viajante brasileiro. Para destinos turísticos, operadores e gestores, a EMT representa um avanço estratégico. Deixa-se de lado o improviso e as campanhas genéricas, abrindo espaço para ações alinhadas ao que o público realmente busca.

    Um destino histórico que identifica na cultura sua principal força de atração pode estruturar roteiros educativos, investir em museus e formar parcerias com guias especializados. Já regiões litorâneas que recebem um público em busca de bem-estar podem adaptar sua oferta com foco em hospedagens silenciosas, atividades de relaxamento e experiências de reconexão pessoal.

    A EMT também se apresenta como um instrumento valioso para o setor público. Quando aplicada em municípios ou regiões, ajuda a diagnosticar percepções, identificar gargalos e orientar investimentos de maneira mais assertiva. Em um país com a diversidade geográfica e cultural do Brasil, ferramentas como essa oferecem suporte técnico para o desenvolvimento de políticas públicas com base real e atualizada.

    O turismo contemporâneo exige mais do que infraestrutura. O viajante atual busca autenticidade, pertencimento e experiências com significado. Para que destinos respondam a essas expectativas, é necessário entender com clareza o que motiva cada visita.

    A Escala de Motivação Turística surge como um recurso útil para que o setor avance com estratégia. Permite a criação de produtos ajustados ao perfil do turista, campanhas mais eficazes e experiências que aumentem a satisfação e o desejo de retorno.

    Compreender o que move o turista brasileiro é o ponto de partida para encantá-lo — e a EMT oferece o caminho para que esse encantamento aconteça de forma planejada, sustentável e conectada com a realidade de cada destino.

    Por Fabiano Vidal – Turismólogo, Jornalista de Turismo, Especialista em Marketing e Publicidade, Doutor em Ciência da Informação e ex-presidente da ABRAJET-PB (2020-2022)

  • Setor de turismo enfrenta onda de ciberataques durante alta temporada de viagens

    Setor de turismo enfrenta onda de ciberataques durante alta temporada de viagens

    Durante a alta temporada de viagens de 2025, o setor de turismo enfrenta um desafio silencioso, mas crescente: o aumento de ciberataques que afetam tanto empresas quanto viajantes. Segundo dados da Check Point Research, o setor sofreu uma média de 1.270 ataques por semana em 2024, colocando o tema da segurança digital no centro das preocupações do mercado.

    Em entrevista exclusiva à Travel and Tour World, Tony Sabaj, especialista em cibersegurança da Check Point, alertou sobre as ameaças mais comuns ao setor: phishing, roubo de credenciais e ransomware. Além disso, surgiram novos golpes, como confirmações falsas de reservas e chatbots maliciosos que imitam serviços de suporte de companhias aéreas e hotéis.

    Um dos esquemas mais recentes é o chamado “ClickFix”, em que criminosos criam páginas falsas que simulam o portal de proprietários do Booking.com. Após inserir seu nome de usuário, o visitante é direcionado a uma tela falsa do ReCAPTCHA e, ao completá-la, é induzido a baixar malware sob o pretexto de “verificação humana”.

    Outra ameaça emergente são os chatbots de inteligência artificial programados para se passarem por atendentes reais de empresas de turismo. Usando dados pessoais extraídos de vazamentos anteriores, esses bots conseguem enganar viajantes e extrair informações sensíveis, como dados bancários e números de passaporte.

    O setor também enfrenta riscos graves relacionados à infraestrutura digital, como ataques DDoS, capazes de paralisar sistemas de reserva e check-in online, além de falhas em configurações de nuvem, que expõem grandes volumes de dados de clientes. Casos recentes, como os ocorridos na Hawaiian Airlines e na canadense WestJet, mostram como até grandes operadores podem ser vulneráveis.

    Segundo Sabaj, a resposta das empresas deve incluir adoção de arquiteturas Zero Trust, monitoramento constante de ambientes em nuvem, atualização de softwares e treinamento de equipes contra phishing. Já para os viajantes, ele recomenda evitar redes Wi-Fi públicas sem uso de VPN, usar autenticação multifatorial e manter aplicativos atualizados antes da viagem.

    A segurança digital deixou de ser apenas um problema técnico e tornou-se parte essencial da experiência do cliente no turismo. Enquanto empresas ajustam suas estratégias, viajantes devem manter atenção redobrada para não caírem em armadilhas virtuais cada vez mais sofisticadas.

    fabianovidal.com.br

  • Parque Terra dos Dinos será instalado em João Pessoa com investimento de R$ 100 milhões no Polo Turístico Cabo Branco

    Parque Terra dos Dinos será instalado em João Pessoa com investimento de R$ 100 milhões no Polo Turístico Cabo Branco

    A Paraíba dá mais um passo significativo na consolidação de sua vocação turística com a formalização do Parque Terra dos Dinos, novo empreendimento do Polo Turístico Cabo Branco, em João Pessoa. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (14) pelo governador João Azevêdo. A proposta prevê um investimento inicial de até R$ 100 milhões, com expectativa de geração de 600 empregos diretos e indiretos, contribuindo para o fortalecimento da economia local.

    Inspirado no Vale dos Dinossauros, localizado em Sousa, no Sertão paraibano, o Parque Terra dos Dinos será um complexo temático voltado à educação ambiental, à valorização da biodiversidade e à difusão da cultura regional. A estrutura contará com cinco grandes áreas temáticas.

    A primeira, chamada Herdeiros da Terra, apresentará de forma simbólica a evolução dos répteis até os dinossauros, com foco nos biomas da caatinga e da Mata Atlântica, abordando também a fauna nativa da região.

    A segunda área, Mistérios da Mata, será sensorial e voltada ao folclore brasileiro, com ambientações que dialogam com mitos e lendas populares.

    A terceira, Parque Humanidades, terá como proposta resgatar a trajetória das civilizações, com referências locais como a Pedra do Ingá, além da valorização das culturas indígenas — especialmente dos povos potiguaras e tabajaras — e comunidades quilombolas.

    O espaço também integrará aspectos científicos, como a astronomia, conectando o passado ao futuro por meio de uma área inspirada no Radiotelescópio Bingo, localizado no município de Aguiar.

    Já a Vila Verde será um centro de convivência que interligará os parques, com shopping a céu aberto, auditório, teatro e feiras voltadas à economia criativa, promovendo interação entre os visitantes e a produção cultural local.

    Todos os espaços serão concebidos com base em critérios rigorosos de sustentabilidade, com conexão direta à infraestrutura do Polo Turístico Cabo Branco. A proposta inclui integração com os empreendimentos hoteleiros, equipamentos públicos, vias planejadas e áreas verdes do complexo.

    A previsão é que a primeira etapa do parque seja inaugurada em até 18 meses, com conclusão total do complexo prevista para três anos.

    Durante a solenidade, o governador João Azevêdo ressaltou a importância estratégica do empreendimento. Segundo ele, o novo parque fortalecerá ainda mais o destino turístico da Paraíba, que já registra altas taxas de ocupação hoteleira durante todo o ano.

    Márcio Clare, fundador do Parque Terra dos Dinos, destacou a receptividade do Governo do Estado ao projeto e a escolha da Paraíba como sede por sua conexão direta com Sousa.

    O presidente da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (Cinep), Rômulo Polari Filho, também comentou o impacto do novo equipamento. Ele lembrou que o Polo Turístico Cabo Branco já contabiliza R$ 2,6 bilhões em investimentos, com resorts, parque aquático e outros equipamentos em construção ou em fase de licenciamento.

    Com 654 hectares, o Polo está situado entre o mar e a mata atlântica nativa, integrando turismo, meio ambiente e desenvolvimento social, como nos projetos da Vila dos Pescadores e da Escola de Gastronomia, Hotelaria e Idiomas.

    fabianovidal.com.br
    Imagem gerada por IA.

  • O avanço do turismo na Paraíba e os riscos do overtourism: o que podemos aprender com a Europa

    O avanço do turismo na Paraíba e os riscos do overtourism: o que podemos aprender com a Europa

    Crescimento do setor turístico exige planejamento para evitar impactos negativos vividos por destinos internacionais / Imagem gerada por IA.

    Cidades e países amplamente reconhecidos como grandes polos turísticos — responsáveis por movimentar economias locais e gerar empregos diretos e indiretos — têm, cada vez mais, manifestado insatisfação com a atividade turística. Em alguns destinos, os protestos vão além de críticas e chegam a atos simbólicos, como jogar água em turistas ou exibir placas com dizeres como “Tourists go home” (“Turistas, vão para casa”).

    Quando o turismo perde o equilíbrio

    Para quem enxerga o turismo apenas como gerador de renda e oportunidades de trabalho, esse tipo de reação pode parecer exagerado ou contraditório. No entanto, é preciso considerar que o turismo, quando conduzido sem planejamento adequado, pode causar sérios danos aos destinos — sejam eles pequenas cidades do interior nordestino ou grandes centros como Barcelona.

    Durante décadas, o turismo foi romantizado como uma “indústria sem chaminés”. Mas essa metáfora ignora a complexidade da atividade, que, embora traga benefícios como geração de empregos, aumento da arrecadação de impostos e melhorias na infraestrutura, também pode causar impactos sociais, ambientais e culturais relevantes.

    Um dos principais desafios enfrentados atualmente é o chamado overtourism — ou turismo excessivo — que ocorre quando o número de visitantes ultrapassa a capacidade do local. Os efeitos são diversos: destruição de patrimônio, especulação imobiliária, poluição, congestionamentos e gentrificação. Este último é um processo em que bairros tradicionalmente populares passam por valorização imobiliária intensa, elevando aluguéis e expulsando moradores antigos para regiões periféricas, muitas vezes sem infraestrutura adequada.

    Cresce o sentimento anti-turismo na Europa

    Diante desses efeitos colaterais, cresce na Europa o sentimento anti-turismo. A preocupação chegou a tal ponto que a Organização Mundial do Turismo (OMT) vem promovendo debates sobre estratégias para evitar que o turismo comprometa a qualidade de vida das populações locais. O desafio está em manter os benefícios econômicos do setor — que movimenta bilhões de dólares anualmente — sem ignorar os seus riscos.

    O cenário da Paraíba e o alerta necessário

    Na contramão dessa realidade, a Paraíba vive hoje o melhor momento de sua história no setor turístico. Antes considerada o “patinho feio” do turismo nordestino, o estado agora registra crescimento expressivo da atividade. Como turismólogo, acompanhei essa evolução de perto e ouvi, em diversas ocasiões, que o atraso no desenvolvimento turístico local permitiu à Paraíba observar os erros cometidos por estados vizinhos, evitando repeti-los.

    Diante disso, é essencial que o estado acompanhe atentamente os debates internacionais e reflita sobre o modelo de turismo que deseja construir. Mais do que atrair visitantes, é preciso garantir que o turismo seja planejado com responsabilidade social, ambiental e urbana.

    O que fazer?

    É essencial que o trade turístico paraibano proponha audiências públicas na Assembleia Legislativa, nas Câmaras Municipais dos municípios que integram o Mapa do Turismo, e nos Conselhos Municipais de Turismo. É nessas instâncias que deve se discutir que tipo de turismo queremos para a Paraíba.

    A atividade turística pode — e deve — ser um vetor de desenvolvimento econômico e de melhoria da qualidade de vida. Mas para isso, é necessário planejamento, gestão participativa e responsabilidade com o presente e o futuro dos nossos destinos.

    Por Fabiano Vidal – Turismólogo, Jornalista de Turismo, Doutor em Ciência da Informação e ex-presidente da ABRAJET-PB (2020-2022)