Autor: Fabiano Vidal

  • Escala de Motivação Turística: Uma nova perspectiva para entender a escolha de um destino turístico

    Escala de Motivação Turística: Uma nova perspectiva para entender a escolha de um destino turístico

    Viajar é mais do que sair de casa. Para muitos brasileiros, trata-se de um momento para descansar, conhecer novos lugares ou apenas se desconectar do cotidiano. Mas o que define, de fato, a escolha de um destino? O que leva alguém a optar por uma cidade específica entre tantas possibilidades?

    Durante muito tempo, essa resposta se baseou em intuições ou percepções vagas. Profissionais do turismo analisavam o comportamento do público com base em tendências, mas sem apoio metodológico capaz de orientar decisões de forma sistemática e aplicável. Isso começou a mudar com a criação da Escala de Motivação Turística (EMT), proposta pelos pesquisadores Marcelo da Silva Schuster e Valéria da Veiga Dias e publicada na revista Turismo: Visão & Ação.

    Fruto de uma pesquisa com quase mil participantes, a EMT identifica três grandes fatores que impulsionam as viagens no Brasil. O primeiro é o lazer — o desejo de explorar novos ambientes e vivenciar experiências prazerosas. O segundo é a motivação cultural, que inclui o interesse por tradições, história e contato com a identidade local. Por fim, há a fuga da rotina, relacionada à busca por tranquilidade, descanso e alívio do estresse.

    Essas três dimensões permitem uma leitura mais precisa do perfil do viajante brasileiro. Para destinos turísticos, operadores e gestores, a EMT representa um avanço estratégico. Deixa-se de lado o improviso e as campanhas genéricas, abrindo espaço para ações alinhadas ao que o público realmente busca.

    Um destino histórico que identifica na cultura sua principal força de atração pode estruturar roteiros educativos, investir em museus e formar parcerias com guias especializados. Já regiões litorâneas que recebem um público em busca de bem-estar podem adaptar sua oferta com foco em hospedagens silenciosas, atividades de relaxamento e experiências de reconexão pessoal.

    A EMT também se apresenta como um instrumento valioso para o setor público. Quando aplicada em municípios ou regiões, ajuda a diagnosticar percepções, identificar gargalos e orientar investimentos de maneira mais assertiva. Em um país com a diversidade geográfica e cultural do Brasil, ferramentas como essa oferecem suporte técnico para o desenvolvimento de políticas públicas com base real e atualizada.

    O turismo contemporâneo exige mais do que infraestrutura. O viajante atual busca autenticidade, pertencimento e experiências com significado. Para que destinos respondam a essas expectativas, é necessário entender com clareza o que motiva cada visita.

    A Escala de Motivação Turística surge como um recurso útil para que o setor avance com estratégia. Permite a criação de produtos ajustados ao perfil do turista, campanhas mais eficazes e experiências que aumentem a satisfação e o desejo de retorno.

    Compreender o que move o turista brasileiro é o ponto de partida para encantá-lo — e a EMT oferece o caminho para que esse encantamento aconteça de forma planejada, sustentável e conectada com a realidade de cada destino.

    Por Fabiano Vidal – Turismólogo, Jornalista de Turismo, Especialista em Marketing e Publicidade, Doutor em Ciência da Informação e ex-presidente da ABRAJET-PB (2020-2022)

  • O avanço do turismo na Paraíba e os riscos do overtourism: o que podemos aprender com a Europa

    O avanço do turismo na Paraíba e os riscos do overtourism: o que podemos aprender com a Europa

    Crescimento do setor turístico exige planejamento para evitar impactos negativos vividos por destinos internacionais / Imagem gerada por IA.

    Cidades e países amplamente reconhecidos como grandes polos turísticos — responsáveis por movimentar economias locais e gerar empregos diretos e indiretos — têm, cada vez mais, manifestado insatisfação com a atividade turística. Em alguns destinos, os protestos vão além de críticas e chegam a atos simbólicos, como jogar água em turistas ou exibir placas com dizeres como “Tourists go home” (“Turistas, vão para casa”).

    Quando o turismo perde o equilíbrio

    Para quem enxerga o turismo apenas como gerador de renda e oportunidades de trabalho, esse tipo de reação pode parecer exagerado ou contraditório. No entanto, é preciso considerar que o turismo, quando conduzido sem planejamento adequado, pode causar sérios danos aos destinos — sejam eles pequenas cidades do interior nordestino ou grandes centros como Barcelona.

    Durante décadas, o turismo foi romantizado como uma “indústria sem chaminés”. Mas essa metáfora ignora a complexidade da atividade, que, embora traga benefícios como geração de empregos, aumento da arrecadação de impostos e melhorias na infraestrutura, também pode causar impactos sociais, ambientais e culturais relevantes.

    Um dos principais desafios enfrentados atualmente é o chamado overtourism — ou turismo excessivo — que ocorre quando o número de visitantes ultrapassa a capacidade do local. Os efeitos são diversos: destruição de patrimônio, especulação imobiliária, poluição, congestionamentos e gentrificação. Este último é um processo em que bairros tradicionalmente populares passam por valorização imobiliária intensa, elevando aluguéis e expulsando moradores antigos para regiões periféricas, muitas vezes sem infraestrutura adequada.

    Cresce o sentimento anti-turismo na Europa

    Diante desses efeitos colaterais, cresce na Europa o sentimento anti-turismo. A preocupação chegou a tal ponto que a Organização Mundial do Turismo (OMT) vem promovendo debates sobre estratégias para evitar que o turismo comprometa a qualidade de vida das populações locais. O desafio está em manter os benefícios econômicos do setor — que movimenta bilhões de dólares anualmente — sem ignorar os seus riscos.

    O cenário da Paraíba e o alerta necessário

    Na contramão dessa realidade, a Paraíba vive hoje o melhor momento de sua história no setor turístico. Antes considerada o “patinho feio” do turismo nordestino, o estado agora registra crescimento expressivo da atividade. Como turismólogo, acompanhei essa evolução de perto e ouvi, em diversas ocasiões, que o atraso no desenvolvimento turístico local permitiu à Paraíba observar os erros cometidos por estados vizinhos, evitando repeti-los.

    Diante disso, é essencial que o estado acompanhe atentamente os debates internacionais e reflita sobre o modelo de turismo que deseja construir. Mais do que atrair visitantes, é preciso garantir que o turismo seja planejado com responsabilidade social, ambiental e urbana.

    O que fazer?

    É essencial que o trade turístico paraibano proponha audiências públicas na Assembleia Legislativa, nas Câmaras Municipais dos municípios que integram o Mapa do Turismo, e nos Conselhos Municipais de Turismo. É nessas instâncias que deve se discutir que tipo de turismo queremos para a Paraíba.

    A atividade turística pode — e deve — ser um vetor de desenvolvimento econômico e de melhoria da qualidade de vida. Mas para isso, é necessário planejamento, gestão participativa e responsabilidade com o presente e o futuro dos nossos destinos.

    Por Fabiano Vidal – Turismólogo, Jornalista de Turismo, Doutor em Ciência da Informação e ex-presidente da ABRAJET-PB (2020-2022)

  • A importância do Salão do Artesanato Paraibano para a cultura e o turismo

    A importância do Salão do Artesanato Paraibano para a cultura e o turismo

    A Paraíba, com sua riqueza cultural e artesanal, tem no Salão de Artesanato Paraibano uma das principais vitrines de sua identidade. Na sua 39ª edição, o evento reafirma a sua relevância para os artesãos locais e para a cadeia produtiva do turismo, sendo muito mais do que uma simples feira de artesanato: trata-se de um símbolo da economia criativa e da preservação cultural.

    Este ano, o tema “Qual o seu papel?” coloca o papel como protagonista, destacando sua nobreza como matéria-prima e levantando reflexões sobre o papel individual e coletivo na valorização do patrimônio cultural. A escolha ressalta o compromisso com a sustentabilidade, um aspecto cada vez mais essencial na produção artesanal.

    O local escolhido para o evento, o estacionamento do icônico Hotel Tambaú, em João Pessoa, não poderia ser mais estratégico. Acontecendo em pleno verão, o salão coincide com o período de maior fluxo turístico na cidade, atraindo visitantes. A estimativa de mais de 100 mil pessoas e uma movimentação financeira superior a R$ 4 milhões evidencia o impacto positivo do evento tanto na geração de renda quanto no fortalecimento da economia local.

    Para os artesãos, o salão representa mais do que uma oportunidade comercial; é um palco de valorização e reconhecimento, que lhes possibilita a chance de estabelecer contatos, expandir mercados e fortalecer a autoestima ao ver suas obras apreciadas por públicos diversos. É também uma forma de perpetuar tradições e técnicas que contam a história do estado.

    Além de ser uma vitrine de artesanato, o evento integra gastronomia, música e outras manifestações culturais. A presença de estandes como a da Cachaça Paraibana e apresentações artísticas complementam a experiência dos visitantes, reforçando a imagem da Paraíba como um destino completo para o turismo cultural.

    Do ponto de vista do turismo, o Salão de Artesanato é um verdadeiro atrativo. Ele complementa a oferta tradicional de sol e mar, atraindo turistas que buscam conhecer as raízes culturais da região. Eventos desse tipo são fundamentais para diversificar o público visitante e promover um turismo sustentável, que respeita e valoriza a comunidade local.

    Em suma, o Salão do Artesanato Paraibano é muito mais do que um evento. É um movimento que impulsiona a economia criativa, preserva a cultura popular e fortalece a identidade paraibana. Ao visitar o salão, estamos não apenas apreciando as obras de arte, mas também contribuindo para a construção de um futuro mais justo e sustentável para o nosso estado.

    Fabiano Vidal é Turismólogo, Jornalista de Turismo, Doutor em Ciência da Informação e ex-presidente da ABRAJET-PB (2020-2022)
    Foto: Walter Rafael – Arquivo Secom-PB

  • O Turismo de João Pessoa: Da promessa dos anos 90 à realidade de hoje

    O Turismo de João Pessoa: Da promessa dos anos 90 à realidade de hoje

    No final dos anos 1990, João Pessoa era considerada a “bola da vez” no turismo nacional. Foi nesse período que surgiram os primeiros cursos técnicos e superiores, como o I Curso Especial de Técnico em Turismo da Escola Técnica Federal da Paraíba (depois CEFET e atualmente IFPB) e os cursos de Turismo da IESP Faculdades (atual UNIESP) e da Universidade Federal da Paraíba. Embora houvesse otimismo, os anos passaram e a “bola da vez” nunca despontou, apesar de toda sua potencialidade turística, o que causava grande frustração entre empresários do setor e o poder público municipal. Este realizava campanhas de promoção turística que exaltavam a tranquilidade da cidade, o custo de vida acessível e, claro, as belezas naturais ímpares de praias como Tambaú, Cabo Branco e a Ponta do Seixas, “onde o sol nasce primeiro nas Américas”.

    Apesar de toda a desconfiança, os investimentos no setor nunca cessaram, e João Pessoa ganhou novos hotéis e restaurantes, além de empreendimentos voltados para atender bem à população e aos turistas, quase sempre oriundos de Recife e Natal. Pela proximidade entre as cidades, esses visitantes procuravam a capital paraibana, que se destacava pela tranquilidade, apresentando-se como um destino ideal para quem buscava fugir da agitação das grandes capitais. Os turistas, em sua maioria, eram casais e famílias que valorizavam um ritmo mais lento, algo que João Pessoa oferecia com maestria.

    Com o passar dos anos, João Pessoa ganhou força em um setor que, até então, não tinha relevância: o turismo de eventos. A chegada do João Pessoa Convention & Visitors Bureau, da Estação Ciência Cabo Branco e do Centro de Convenções Ronaldo Cunha Lima permitiu não apenas combater a sazonalidade do setor, mas também colocar João Pessoa em destaque nesse mercado. Isso manteve o turismo aquecido mesmo após o fim do período de férias dos turistas de lazer, possibilitando o crescimento de empresas e novos investimentos no turismo.

    A retomada do Polo Turístico Cabo Branco, com a instalação de novos hotéis que prometem dobrar a capacidade hoteleira de João Pessoa, recolocou, por assim dizer, a capital no mapa turístico brasileiro, destacando-a como um dos principais destinos turísticos do Nordeste. O fluxo de turistas cresceu exponencialmente, com visitantes de diversas partes do Brasil e do mundo desembarcando à procura de suas praias deslumbrantes, gastronomia singular e experiências culturais autênticas.

    No entanto, é importante frisar que, se agora João Pessoa é uma realidade no cenário turístico brasileiro, cresce, junto com o número de turistas, a responsabilidade do trade turístico, da Prefeitura, do Governo do Estado e da sociedade civil de debater o planejamento do turismo para as próximas décadas. Isso é essencial para que esta atividade, que tantos benefícios traz para o desenvolvimento da economia, gerando empregos diretos e indiretos, não se torne predatória, vítima de um turismo de massa que pode, por exemplo, impactar negativamente atrativos naturais como Picãozinho.

    Nesse sentido, o turismo deve ser compreendido como uma política pública, planejada no presente com vistas ao futuro, para que seja uma atividade sustentável e um dos pilares da economia local. Com essa finalidade em mente, é fundamental que as autoridades invistam em soluções que harmonizem os interesses de turistas e moradores. Medidas como o controle da especulação imobiliária e a promoção de um turismo inclusivo e sustentável podem ser o caminho para evitar que o crescimento do setor se torne um fardo para a população.

    João Pessoa já provou que pode ser mais do que uma promessa; hoje, é uma realidade no mapa turístico nacional. Resta agora encontrar o equilíbrio entre o progresso e a preservação do que a torna tão especial: sua combinação única de beleza, acolhimento e qualidade de vida.

    Fabiano Vidal é Turismólogo, Jornalista de Turismo, Doutor em Ciência da Informação e ex-presidente da ABRAJET-PB (2020-2022)
    Foto: Alexandre Saraiva Carniato (Pexels)

  • Governo da Paraíba busca parcerias no México para fortalecer o artesanato

    Governo da Paraíba busca parcerias no México para fortalecer o artesanato

    A missão “Arriba Paraíba”, liderada pela Secretaria do Turismo e do Desenvolvimento Econômico e pelo Programa do Artesanato Paraibano (PAP), em colaboração com a Prefeitura de João Pessoa e o Sebrae/PB, visa fortalecer o artesanato paraibano por meio de parcerias e troca de experiências com o México.

    A iniciativa surge após o diretor do Artesanato do Estado de Puebla, Daniel Farfán, visitar a Paraíba durante o Fórum Internacional de Cidades Criativas. Um Protocolo de Intenções será assinado com o secretário de Cultura de Puebla para cooperação em projetos de economia criativa, artesanato e design.

    A missão busca busca o setor artesanal paraibano, aproveitando as experiências do México, reconhecido mundialmente por sua contribuição econômica através do artesanato. Com a participação de representantes de diversas entidades, a expectativa é agregar valor aos produtos locais e qualificar os artesões paraibanos, promovendo o desenvolvimento sustentável do estado.

    Redação, com informações da SECOM-PB