Covid-19 aumenta questionamentos que o setor do turismo já conhecia, dizem especialistas

Entre os questionamentos, está o turismo de massa

A crise enfrentada pelo turismo devido à pandemia de Covid-19 aumenta questionamentos já conhecidos por profissionais e viajantes, dizem especialistas. Entre eles, as consequências do turismo de massa. A tendência para o setor após pandemia seria investir nos turistas locais. Enquanto a situação não volta à normalidade, moradores das principais cidades europeias aproveitam para visitar monumentos vazios.

Com melhora das condições de vida nos países emergentes e uma oferta cada vez maior de conexões aéreas, o desenvolvimento do turismo mundial ia de vento em popa. Mas no meio deste crescimento exponencial surgiu a pandemia. As medidas de quarentena obrigaram quase um terço da população do planeta a ficar em casa, a Times Square e a Torre Eiffel ficaram vazias, museus e catedrais no mundo inteiro fecharam suas portas e Veneza, sem as gôndolas e as multidões, finalmente fez jus a seu apelido de Sereníssima.

As imagens de pontos turísticos que recebiam milhares de turistas diariamente vazios viraram símbolo da gravidade da crise sanitária.

Após o relaxamento das medidas de isolamento em muitos países, mas com muitas fronteiras ainda fechadas, a pergunta que fica é: qual o futuro do turismo após a Covid-19?

O estrago financeiro já começa a ser contabilizado. De acordo com o relatório da Organização Mundial de Turismo (OMT), que dá diretrizes para a volta da atividade após a pandemia, o impacto da Covid-19 para o setor deve ser de entre US$ 910 bilhões e US$ 1,2 trilhão, o que equivale a uma retração de quase 80% do setor. No meio dessa crise, entre 100 e 120 milhões de empregos estão em risco.

Jean Pierre Mas, presidente da Les Entreprises du Voyage, organização que reúne empresas do setor do turismo na França, diz que uma volta à situação de 2019 não está prevista para antes de 2023. Para ele, o risco sanitário e o fechamento das fronteiras são problemas conjunturais que vão acabar um dia. “Mas sobre as modificações estruturais, que são frutos dessa pandemia, podemos imaginar muitas possibilidades sem ter certeza de nada”, diz.

O futuro do setor é incerto e a crise sanitária aumentou questionamentos que já existiam. Preocupações com as consequências do turismo para as populações locais, com o impacto das viagens em ecossistemas frágeis e com a participação do setor aéreo no aumento das emissões de CO2, que contribuem para a crise climática, são alguns exemplos das questões que devem ser resolvidas por viajantes e profissionais do turismo.

Turismofobia

A presença em massa de turistas em alguns centros urbanos gera a chamada “turismofobia”, a hostilidade de alguns locais contra os visitantes. Para Mas, ela é resultado da má planificação dos destinos turísticos, que concentram muitas pessoas em um mesmo local.

“O turismo é necessário para a economia mundial, as populações de Barcelona, Veneza e Dubrovnik sabem disso. Por outro lado, evitar a concentração de turistas em um mesmo lugar é um problema de organização do território; não do turismo. É necessário que os poderes públicos se organizem para repartir o turismo em diferentes lugares”, diz.

“Em Paris, por exemplo, os turistas se concentram em 1km ao redor do rio Sena, entre o Louvre e a Torre Eiffel. Eles poderiam estar mais espalhados na cidade”, sugere. “É necessário desenvolver a curiosidade do turista, que também tem que se liberar do espírito gregário”.

Uma das ideias sugeridas por ele é que o Louvre receba visitantes a noite para evitar as longas filas de espera durante o dia. “É necessário ser criativo”, diz.  

Josette Sicsic, especialista do turismo, lembra que algumas regiões da França, o país mais visitado no mundo, recebem poucos turistas. “O turismo na França se concentra em Paris, na Côte d’Azur, nos castelos da Loire e em algumas estações de esqui nos Alpes”, afirma.

Para ela, todas as crises graves causam mudanças de comportamento. “Mas isso [a Covid-19] não vai revolucionar o turismo”, afirma. “Uma vez que as pessoas esquecerem, elas vão voltar a viajar. Foi assim após os atentados de 11 de setembro de 2011”, relembra. “Para mim, o único setor que será obrigado a mudar por razões econômicas é o setor aéreo”, prevê a especialista. “O meio de transporte é o que muda o fluxo turístico sempre. Foi a popularização do transporte aéreo que fez o setor do turismo progredir.”

Para ela, a regularização do setor é urgente e a demanda por mudança deve aumentar nos próximos anos. “Vamos ter que resolver o problema aéreo porque a crise no setor é muito grande. Eles quiseram ir rápido demais”, diz.

Para ela, essa regulação não virá de uma mudança de comportamento do consumidor, pois os movimentos para diminuir as viagens de avião – como o que prega a “vergonha de voar” (do termo sueco flygskam) –, que progridem em alguns países da Europa, são muito marginais e não vão mudar a fisionomia do turismo. “A consciência ambiental existe, isso é um fato. Pouco a pouco a gente acabou entendendo que o principal problema é ambiental, mas para passar do discurso aos atos é necessário muito tempo”, diz.

Medidas para diminuir o tráfego aéreo já estão sendo pensadas na França, como aumento de investimento no transporte ferroviário e até a supressão de voos considerados desnecessários, de trajetos curtos, que podem ser feitos em trem.

Esta reorganização talvez seja necessária para tirar o transporte aéreo da crise, e convencer os passageiros a voltar a entrar em um avião.

Para Sophie Lacour, especialista em turismo e em integração de novas tecnologias aos serviços, a crise do setor aéreo apenas mostrou fragilidades de um sistema que não era sustentável e que não tinha um plano a longo prazo.

Turismo local e virtual

Mas como será o turista do pós-Covid-19? De acordo com Lacour, uma tendência que deve ser importante nos próximos anos é preocupação com as condições sanitárias de suas destinações. “Existe uma preocupação com a saúde. As pessoas vão viajar para destinações seguras, que tenham um bom sistema hospitalar”, prevê. Mas ela não acredita que o turismo de aventura deixe de existir. “Não existe um turista, mas vários. As pessoas de 20 anos vão continuar a viajar com uma mochila nas costas, as pessoas idosas e com família buscarão destinações mais seguras”, analisa.

O novo perfil do turismo deve seguir uma tendência mais local, privilegiando destinos mais próximos. Para muitos, esta não é uma grande mudança, já que são poucos os afortunados que podem fazer muitos quilômetros durante as férias, mesmo em países desenvolvidos. Na França, por exemplo, menos de 20% dos viajantes embarca para uma destinação estrangeira.

Para Lacour, os profissionais do turismo devem pensar soluções para atrair os habitantes locais para visitarem sua própria região. “É necessário parar de fantasiar sobre o turista que viaja para países estrangeiros. Eles representam apenas 15 ou 20% do total. Para esse público que tem dinheiro, na verdade, nada vai mudar. Eles vão continuar viajando.”

Segundo uma pesquisa sobre o turismo pós-Covid-19 realizada pela consultora Armelle Solelhac, ideias como “staycashion”, quando as pessoas aproveitam sua cidade como um turista, ou o “slowturismo”, baseado em trajetos curtos e nas proximidades de casa, podem se implantar definitivamente. Hotéis em grandes cidades do mundo já exploram esta tendência oferecendo serviços por dia, como acesso à piscina ou ao spa, ou até espaços de coworking.

A pesquisa destaca as ações que devem ser privilegiadas pelo setor como a planificação dos fluxos, um turismo mais sustentável, a conservação do patrimônio cultural e natural e a compreensão de sua fragilidade, a inclusão das populações locais, a valorização de lugares pouco visitados e a aceleração da “digital heritage”, que é a difusão em linha de exposições, espetáculos, como já vem acontecendo desde o início da quarentena.

Equilíbrio

Visitar sua própria cidade é o que muitos moradores de grandes capitais europeias já começaram a fazer desde que as medidas de isolamento foram flexibilizadas. A mineira Laura Pantaleão, que vive há seis anos em Barcelona, diz que a cidade está bem mais agradável sem tantos turistas estrangeiros.

“A gente nota uma diferença. Antes quando você ia em um lugar no centro antigo, onde as ruas são muito estreitas, você encostava nas pessoas para passar. Hoje você anda supertranquila”, diz. “Você sente também que são moradores. Isso muda um pouco a identidade das ruas, os comerciantes conversam com seus clientes, voltou a existir uma vida de bairro nos lugares mais turísticos.”

Nas últimas semanas, após o fim da quarentena e a reabertura dos monumentos, Laura visitou vários pontos turísticos da cidade, como a Sagrada Família e o Parque Güell. “Eu nunca tinha voltado ao parque por que além de ser caro, tinha filas homéricas, era insuportável, lotadíssimo. Agora está aberto e gratuito para os moradores da cidade”, conta. “Passear no parque Güell sem ver um turista foi incrível”, diz.

Laura também conta que quase não frequentava as praias da cidade porque estavam sempre muito cheias no verão. Mas este ano decidiu ir à cidade balneária de Casteldefells, no sul de Barcelona. Mas apesar das praias ainda estarem vazias, ela já começou a sentir o aumento dos turistas após a reabertura das fronteiras.

Ela conta que o turismo de massa descaracterizou muitos lugares de Barcelona, tomou os espaços que antes eram dos moradores e aumentou o custo de vida na cidade, principalmente os aluguéis. “Com a invasão dos Airbnbs, os preços dispararam, o aluguel é caríssimo”, diz.

“O que eu sinto hoje nos barceloneses é uma busca por um equilíbrio, porque obviamente é uma cidade que vive também do turismo”, explica. “Acho que agora, depois da pandemia e do que temos sentido este ultimo mês, as pessoas querem reconquistar a cidade. A busca do equilíbrio, do que é a cidade do barcelonês e o que pode ser feito para repensar o turismo aqui, tem sido discutido.” Ela cita os esforços da prefeita de Barcelona Ada Colau, ex-militante pelo direito à moradia, para regularizar os aluguéis.

Turismo durante a pandemia

Os goianos Giovana Amorim Zanato e Gustavo Fleury vieram para a França em 2018 para estudar por dois anos. Nos últimos meses da estadia, eles foram surpreendidos pela pandemia. Com as passagens de volta para o Brasil marcadas, eles aproveitaram as últimas semanas para visitar vários pontos turísticos de Paris e viajar pela Europa, no período de reabertura das fronteiras. Entre os pontos turísticos visitados, a Torre Eiffel, o Museu do Louvre e o castelo de Chambord, que faz parte do conjunto de castelos do Vale do Loire e recebe sozinho, anualmente, 1,5 milhão de visitas.

Na Torre Eiffel, que antes da pandemia recebia 20.000 turistas por dia, Giovana diz não ter enfrentado fila nenhuma, “só o controle de segurança”, conta. Ela encontrou a mesma situação no Louvre. “Foi muito bom visitar o museu sem tantos turistas. Eu estava com crianças e elas podiam correr pelos corredores. Ainda que eu saiba que não se deve correr em um museu, acho que seria impossível em outro momento”, brinca. 

Giovana e Gustavo também visitaram a Côte d’Azur, no sul da França, e a Alemanha, no começo de junho. Apesar da tensão durante toda a viagem feita de carro, devido ao risco de contaminação que ainda existia, eles dizem que vão sentir saudades “desse vazio”.

“Foi um momento único, bem especial. Não somos do grupo de risco, nos cuidamos para que se estivéssemos infectados não transmitíssemos. Tomamos todas as precauções e conseguimos visitar muitas coisas”, diz. “No final das contas foi um privilégio estar aqui no fim da quarentena e viver o fim do confinamento antes da abertura das fronteiras”, diz.  

Direito 

Mas seria um desejo egoísta querer que estes lugares permaneçam vazios?

Jean Pierre Mas diz que além de ser egoísta, não é realista. Ele reconhece que o prazer de visitar monumentos vazios é raríssimo e único. “Eu visitei o Camboja na época dos khmers. Não tinha ninguém, não precisava pagar entrada. Nós passeávamos entre os templos e nos diziam para tomar cuidado com as minas. As coisas evoluíram consideravelmente. Hoje em dia é difícil encontrar um lugar turístico não visitado”, diz.

Para ele, detrás da expressão turismo de massa existe uma conotação negativa, “como se fosse um palavrão, mas não existe turismo vulgar”, afirma. “O turismo é fruto do direito às férias, que por sua vez é resultado de lutas sociais, um direito adquirido. A indústria do turismo se desenvolveu graças a isso”, explica.

“Em nome de que lógica podemos proibir brasileiros e chineses de descobrir o mundo. Eles têm o mesmo direito que nós europeus”, afirma. “Não voltaremos atrás neste direito. Tornar as viagens mais caras e menos acessíveis é dizer que uma pessoa que mora na periferia não tem direito a férias. Isso é algo elitista e uma volta no tempo em matéria de conquistas sociais”, completa.