Descobrindo Natuba: Um roteiro para quem deseja desfrutar de lugares que ainda não foram explorados

Natuba está situada no Agreste da Paraíba

Andando pela Paraíba, aprendi a apreciar cada lugar, cidade ou roteiro, até mesmo aqueles nada convencionais que ninguém ainda ousou descrever. Para mim, o melhor, é mergulhar na cultura, conhecer novas pessoas, saber como aquele lugar funciona de verdade, sem as máscaras das agências e sites comerciais de turismo.

Num estado como a Paraíba, tão rico e com tantas opções de turismo de experiências, é possível pensar que tudo já foi descoberto e não existe mais lugar pra visitar. “Doce engano!”. Ainda tem muita estrada pra percorrer e muito talento pra se descobrir. E o município de Natuba, no Vale do Paraíba, é um deles. Vamos conhecê-lo?!

Mapa Natuba / divulgacao

Natuba é um município paraibano com cerca de 10 mil habitantes. A cidade está situada bem em cima da linha que divide Paraíba e Pernambuco. É isso aí! Se você imaginar, vai se situar rápido. A cidade é pequenina e quando olhada de cima dá pra ver Natuba “todinha”. Seu desenho no mapa parece uma bota. “Eita!” Me lembrei da Itália. Mama mia! Mas esta não é a única semelhança de Natuba com o país europeu: o cultivo da uva por meio da agricultura familiar e a gastronomia, (isso envolve vinhos, geleias e queijos) são outras semelhanças que valem ser ressaltadas.

Ainda sobre a geografia do município, Natuba está situada no Agreste da Paraíba e faz fronteira com Aroeiras e Umbuzeiro, também com Macaparana e São Vicente Ferrer, do lado de Pernambuco. Saindo da capital João Pessoa, você tem duas opções para chegar a Natuba. Uma é pela BR 101 e a outra, pela BR 230, depois é só pegar a PB 082. Saindo de Recife você chega pela BR 408 e pela PE 074. Nada que seu GPS e um bom “Por onde eu chego a Natuba, Senhor?!” não possa encontrar. Outra dica muito importante é que somente a operadora de celular Vivo funciona no município.

Parti pra Natuba com as amigas queridas Alessandra Lontra, companheira de expedições pela Paraíba e Aryuska Santos, secretária de Turismo de Natuba. Saímos cedo de João Pessoa para aproveitarmos o dia e construirmos uma rota turística funcional. Depois de Goiana, em Pernambuco, a estrada já nos dá sinais da colonização europeia e da “civilização do açúcar” com algumas igrejas, engenhos, cana-de-açúcar e belíssimas palmeiras imperiais, podendo ser avistadas da estrada que, a partir do Distrito de Siriji, pertencente ao Município de São Vicente Ferrer (PE), passa a ser de barro.

Capela de Santa Ana

Andando um pouco mais, a cidade de Natuba se descortina

Nossa primeira parada foi na Capela de Santa Ana, uma charmosa edificação à beira da estradinha de barro. O ar puro, o cheiro de estrume e a bela paisagem do Semiárido nos lembram de que, de fato, estamos na zona rural! Andando um pouco mais, a cidade se descortina numa paisagem bucólica que nos remete às típicas cidades nordestinas.

Esta é a segunda vez que visito Natuba. Na primeira, fui pra participar da Festa da Uva que acontece todos os anos na época da colheita e a veia empreendedora do povo de lá, me deixou boquiaberta. Á partir da Festa, foi que me encantei pelos vinhos produzidos na região, com a Uva Isabel.

Vinda da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, aqui no Brasil a Vitis labrusca, ou a Uva Isabel é protagonista na construção do hábito do consumo do vinho. Essa uva, mais doce, adaptou-se ao clima do semiárido, quente durante o dia e frio à noite, o que faz com que os vinhos produzidos na região sejam muito saborosos. Na realidade, nós, nordestinos, apreciamos o vinho doce exatamente pelo fato de ele poder ser servido “geladinho”. Claro, nosso clima é muito quente e tudo gelado cai bem melhor.

Degustando o Pedra Pintada Suave

Aprendendo a identificar um bom vinho, com João Andrade

Mas, eu saí em busca de quem produzisse vinho. Foi aí que conheci o João Andrade, “filho de Natuba”. Seus pais fazem parte da tradição histórica na cidade; seu irmão até escreveu um livro sobre como Natuba nasceu! E pensei: Estou no caminho certo para provar o vinho o bendito vinho de Natuba! E estava mesmo. João me ofereceu um vinho saborosíssimo, o Pedra Pintada, cujo nome tem relação com as famosas pedras do lugar, e é produzido artesanalmente por ele e pela sua esposa. Com toda certeza, ir a Natuba e não beber uma taça do Pedra Pintada seco ou suave é um verdadeiro pecado mortal!

Natuba é a única cidade paraibana que produz uva e vinho, não é atoa que lá se faz a “Festa da Uva” anualmente. Na Festa um concurso para escolher os melhores vinhos da cidade acontece, o que faz, na opinião de qualquer especialista no setor, a cidade despontar como vocacionada para o enoturismo, segmento da atividade turística onde as viagens são estimuladas por meio da apreciação do sabor e aroma dos vinhos, das tradições e da cultura da localidade que produz a bebida.

Não deixa nada a desejar em relação às geleias que já provei fora do país

Conhecendo as parreiras de onde Roziane Egito, colhe uvas para produzir a geléia

Seguimos para provar a geleia de uva. Aryuska me disse que é deliciosa! Eu pensei: Se já provei um vinho maravilhoso, não vou me surpreender com a geleia! Mas, “como todo penso é torto”, me surpreendi, sim! É bem melhor do que eu imaginava e garanto que não deixa nada a desejar em relação às geleias que já provei fora do país. Fazer geleia é coisa de gente determinada e pelas mãos abençoadas da Roziane, só poderia ter o aroma da uva fresca, o sabor marcante e a textura macia.

Bar do Sabiá ou, simplesmente, Bar do Mauro

Eu e Mauro

Contudo, nem só de geleias e vinhos vive a gastronomia de Natuba; também de galinha de capoeira ou galinha caipira, como chamam lá no Sul, arroz de festa e algumas especialidades que só existem no Bar do Sabiá ou, simplesmente, Bar do Mauro! Ele é um cara simpático e seu restaurante é típico da região, eu diria um bar e restaurante original do interior, na “beira da rodagem”, lugar de encontro para “tomar umas e outras”, jogar sinuca, comer bem e apreciar a natureza, que existe ao redor.

Panorâmica no Mirante

Próximo ao Bar do Sabiá, o Mirante de Natuba é indiscutivelmente o ponto alto do roteiro; dele, se pode ver a cidade de cima e aproveitar o vento batendo no rosto e assanhando os cabelos. Dá uma sensação de liberdade! A foto mais pedida no é sempre a de braços abertos. #eufiz

Cachoeira da Bica Grande no Parque Municipal da Bica Grande / maio 2019 acervo Ana Célia Macedo

Maria do Socorro Souza da Silva presidente da Associação Mulheres Na Fibra /maio 2019 acervo Ana Célia Macedo

Ana Célia Macedo em panorâmica vertical na cachoeira da Bica Grande em Maio de 2019

Outro lugar de destaque e que deve ser visitado em Natuba é a cachoeira da Bica Grande; afinal, é o principal ponto turístico da cidade, com 77 metros de altura. Está localizado no Parque Municipal da Cachoeira da Bica Grande. Desta vez, por causa do roteiro apertado, não deu tempo ir à cachoeira, mas, não posso deixar de dar esta dica: vale a pena passar lá e até se aventurar num banho gelado pra refrescar. Outra dica legal é que o Parque oferece lugar para camping, assim você pode juntar um grupo e aproveitar pra pernoitar e praticar esportes de aventura como o rapel e as trilhas ecológicas.

Inclusive uma dica de produção associada ao turismo que não pode deixar de ser destacada aqui é o artesanato da folha da bananeira, que é um produto muito forte no município, devido à cultura da banana. Então quando, estiver no Parque, entre na Associação Mulheres Na Fibra, funciona lá, para comprar aquele souvenir ou as peças bacanas que são produzidas e vendidas lá. Na Associação você vai conhecer a irmã Socorro, uma guerreira que há dez anos tem ajudado a transformar a vida das mulheres da comunidade por meio do artesanato.

Um dos meus maiores desejos, talvez o principal, relativo a esta pequena expedição, era o de conhecer de perto os parreirais. Eu lembro que quando Aryuska me falou que em Natuba havia plantação de uvas fiquei em choque! Isso me remeteu ao ano de 2005 quando visitei a Suíça pela primeira vez e tive a oportunidade de visitar os parreirais na parte francesa do país; lá, vi o corte, na realidade, a colheita da uva. Por isso quis tanto conhecer a cidade.

Uva Isabel do parreiral de seu Antônio José

Seu Antonio é alguém com uma sensibilidade incrível para o cultivo da uva

Enquanto contava isso às meninas, resolvemos parar num parreiral, e claro, a parada já fazia parte do nosso roteiro. Foi quando conheci o seu Antônio José; ele é presidente da Cooperativa dos Fruticultores de Natuba e Região e alguém com uma sensibilidade incrível para o cultivo da uva. Ele me falou um pouco sobre as técnicas de cultivo e de colheita e disse que aprendeu isso com seu pai; disse, também, como a Associação trabalha em benefício da agricultura familiar no município, gerando renda e melhorando a vida da comunidade. Nossa conversa me sensibilizou e me fez acreditar bem mais no poder do coletivo.

Seu Antônio contou que as uvas para consumo nem sempre são as mesmas utilizadas para a fabricação do vinho, o que significa dizer que é preciso ter certeza com qual segmento a pessoa quer trabalhar antes de eleger uma uva para o plantio. Enquanto ele falava, eu observava as parreiras, os lindos cachos bem pretinhos com uvas pequenas. Depois, aproveitei para colher e chupar algumas. Que uva deliciosa é essa Isabel!

A cultura da uva em Natuba, movimenta cerca de R$ 1,2 milhão por ano, inclusive este valor poderia ser mais expressivo, se houvesse uma estrada de acesso a cidade com estrutura suficiente para atender a demanda, que infelizmente é transportada e comercializada em Pernambuco. Natuba também é um dos maiores produtores de banana, são produzidas anualmente 9 mil toneladas de banana e 2.400 mil de uva.
*Essas informações estão disponibilizadas no site da Cooperativa.

Uma das muitas estradas de barro do município de Natuba

A paisagem diz muito do lugar e saindo das uvas, resolvemos conhecer também as pedras mais famosas da região. Para isso, tivemos que seguir por algumas estradas de barro e passar por dentro do município pernambucano São Vicente Ferrer, num percurso de cerca de 18km até o Distrito de Pirauá. A rodovia até Pirauá é asfaltada, mas possui muitas curvas e alguns buracos, o que faz com que você precise diminuir a velocidade e ter mais atenção na estrada. Uma dica importante é que se você for de carro, verifique seu pneu de step e dirija com cuidado.

No caminho, a arquitetura típica do Nordeste e algumas igrejas atraem a atenção de quem gosta de belas construções, e fica outra dica: o bom mesmo é ir com tempo pra parar e registrar os monumentos e os momentos mais especiais.

Chegando em Pirauá, uma particularidade me chamou a atenção: como pode um município pertencer a dois estados? Pois é, o Distrito de Pirauá, pertence a Natuba, na Paraíba e ao município de Macaparana em Pernambuco! E a divisa fica bem no meio da principal rua. “Pode isso, Arnaldo”?

Pedra do Bico

Enfim, após cerca de mais de 8 km de estrada de barro, avistamos um agrupamento de gigantescas e belíssimas pedras. O local está a cerca de 770 metros acima do nível do mar e a subida é íngreme; por isso, aconselho usar tênis apropriado e nunca subir sem a ajuda de um guia ou de um condutor de turismo local especializado.

Encantada com a beleza do lugar

Eu, Alessandra Lontra e Lívia Barbosa. Aryuska fez a foto na Pedra do Navio

Numa das pedras foi construída uma pequena capela em homenagem a Santo Antônio e todos os anos, no dia 12 de junho, é realizada uma festa, que também é chamada de “Festa da Pedra do Bico”, que muitos romeiros visitam para receber as bênçãos do santo casamenteiro. Justamente por causa dessa devoção, a pedra também é chamada de “Pedra de Santo Antônio”. Reza a lenda que quem passar por debaixo da pedra por três vezes arruma um casamento. Hashtag fica a dica, pras solteiras de plantão!

Liberdade!

Pisando na pedra com pés descalços, sentindo a energia do lugar

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Subimos também a Pedra do Navio e de lá enxergamos o infinito! Lá bem longe podem ser vistos os prédios de Campina Grande, a barragem de Acauã, as pequenas cidades. Aproveitei o momento ímpar, com uma vista incrível e, mais uma vez, senti a sensação de liberdade, só que dessa vez resolvi me conectar com o Divino “imanente e transcendente”. Foi verdadeiramente uma experiência.

Provando os queijos da Fazenda Pirauá os melhores da Região

Com Gustavo Lima da Fazenda Pirauá

Finalizando nosso roteiro, paramos na Fazenda Pirauá, onde são produzidos os queijos mais gostosos da região. Fomos recebidas pelo proprietário Gustavo Lima e sua esposa Paula que não mediram esforços para que a gente provasse os queijos produzidos e vendidos por lá, e também para nos apresentar a bela fazenda que pode ser locada para eventos.

Eu estive em Natuba a convite de Aryuska que é secretária de Turismo e decidi ir por uma motivação especial: primeiro, eu me encantei com os atrativos naturais e, ao mesmo tempo, com a simpatia e a hospitalidade do seu povo. Por isso, resolvi fazer um roteiro elencando as potencialidades turísticas do município; segundo, acredito no turismo como agente de transformação social. Este é o meu lema, enquanto jornalista especializada em turismo.

Entretanto, para fazer este roteiro é necessário agendamento, motivo pelo qual vou deixar aqui todos os contatos para que você possa se informar sobre traslados, receptivo, guias, preços, horários e hospedagem. Um detalhe importante; Este roteiro se faz em no minimo em dois dias!

Natuba ainda é um destino a ser descoberto, mas, uma coisa se pode garantir, está acessível a todos; do que busca vivencia, experiência e esportes de aventura ao mochileiro andarilho ou simplesmente o visitante, todos vão ter histórias boas pra contar, e eu espero que sua passagem por lá seja tão intensa quanto foi a minha. Boa viagem!

Serviço:
Receptivo Natuba – Otacílio Filho (83) 9 8113-0423
Vinho Pedra Pintada – João Andrade (83) 9 98165- 8565
Geleia de Uva – Roziane Egito (81) 9 9322-8774
Bar do Sabiá – Mauro (83) 9 8143-8588
Irmã Socorro do artesanato – (83) 98103-1595
Parreiras de Uva Isabel – Antônio José (83) 9 9321-7735
Fazenda Pirauá – Gustavo Lima (81) 9 9747-7350
Secretária de Turismo de Nabuba – Aryuska Santos (83) 9 8113-0363
Pousada Serra do Pirauá – (83) 3397-5087 – Estr. Pirauá – Poço Comprido, Macaparana – PE, 55865-000
Pousada Sol Nascente – (83) 98105-3495 – R. Cônego Antônio Ramalho, n°45 – Centro, Umbuzeiro – PB, 58497-000